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Discurso ao Escorrer do Pensamento – Pintura Escrita por António Victorino d’Almeida

150 x 160 cm

Acrílico s/ tela

2005

Discurso ao Escorrer do Pensamento

Pintura Escrita por António Victorino d’Almeida

 

O quadro que idealizo ganha estranhamente mais cor quando desce sobre o mundo aquela meia penumbra do entardecer de Inverno em que eu brincava no meu quarto, até que alguém viesse dizer-me que era preciso acender a luz, pois já não se via nada…

Não há propriamente figuras, mas o quadro evoca formas que me são familiares, numa sucessão geométrica de cubos com letras e algarismos que eu sobrepunha, formando torres cada vez mais periclitantes no seu equilíbrio, até que acabavam, mais tarde ou mais cedo, por se abater…

Antes do desabamento, porém, eu deitava-me no chão e olhava a torre de baixo para cima, fascinado com a dimensão atingida e temeroso de que a derrocada dos cubos me atingisse na cabeça…

Os cubos caídos espalhavam-se pelos vários cantos da dependência, e havia sempre um que desaparecia, provavelmente por debaixo do guarda-vestidos de madeira amarelada onde havia um espelho.

Havia e há, pois o guarda-vestidos ainda existe, embora eu não saiba ao certo aonde… Talvez esteja noutra casa, eventualmente em Moledo, ou também pode acontecer que o tenham desmanchado e se encontre numa arrecadação qualquer…

Mas o guarda-vestidos existe e ser-me-ia fácil certificar-me do lugar onde se encontra.

Acho que não vale a pena. Assim, recordo-me dele com a consciência de que houve um dos cubos (eu chamava-lhes quadrados…) que levou sumiço na obscuridade do estreito espaço que separa o corpo imponente do armário do chão de madeira encerada… Na verdade, começo a interrogar-me acerca do paradeiro desse guarda-vestidos, pois estou a vê-lo no lugar onde se encontrava outrora, um lugar que já não existe…

Logo, não há a menor hipótese do cubo ainda poder estar no sítio para onde terá outrora deslizado, quando a torre se abateu – se acaso deslizou para aí, pois o único facto concreto de que tenho memória viva é o seu desaparecimento… Não sei quais seriam as letras e os algarismos desse cubo desaparecido, embora admita que houvesse um “x” e um “y” – sendo provável que não houvesse quaisquer símbolos aritméticos…

Quando vinham acender a luz do quarto, o dia acabava-se, não porque o sol desaparecesse, mas porque era substituído por um candeeiro…

Era a hora do jantar e o cubo lá ficava, provavelmente debaixo do guarda-vestidos onde eu me via rapidamente ao espelho e constatava que tinha efectivamente crescido.

Cresci tanto que esqueci o cubo e até já nem sei onde está o guarda-vestidos – que todavia existe.

Mas onde?…

               

O quadro que eu idealizo baseia-se nesta série de inesperadas dúvidas e fugazes lembranças de um quarto onde ainda havia mais brinquedos e uma prateleira com muitos, imensos bonecos. Alguns desses bonecos ainda existem – e neste caso, eu sei onde eles estão.

 

António Victorino D’Almeida 

Portugal, novembro 2003